Criação de premissa na literatura fantástica

Quando escrevi meu primeiro livro de ficção, (Terras dos Encantados – A Jornada do Círculo, Editora Astronauta, 2016) fiquei meio perdida na hora de criar uma premissa e, na época, não encontrei um artigo ou um site que me guiasse nesse labirinto. Então, agora que trilhei o caminho das pedras, quero compartilhar com os autores a minha experiência.

Minha intenção aqui não é ditar fórmulas perfeitas. Sei que muitos escritores devem ter suas próprias receitas e métodos pessoais. O que desejo, na verdade, é apenas oferecer algumas dicas para autores de literatura fantástica. Principalmente para os iniciantes.

Bem, o primeiro passo é saber sobre o que o autor deseja escrever. Neste gênero amplo, vai escolher uma fantasia, uma história de terror, uma distopia, um romance sobrenatural, uma ficção científica? Inúmeras são as possibilidades. Escolha feita, então a próxima etapa é saber em que universo pretende-se mergulhar. Algo no estilo O Senhor dos Anéis ou vai navegar pela dimensão das fadas? Uma linha mais Guerra nas Estrelas ou focar no mundo de vampiros e lobisomens? E qual o tema do livro dentro da esfera escolhida? Essas são algumas questões que o autor deve-se fazer antes de iniciar a história.

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Agora que o autor já sabe em que universo vai navegar, ele precisa justificar a sua trama principal. Ou seja, o leitor precisa conhecer o ‘background’ da história, o seu contexto. Então, se a narrativa já começa com um mundo dominado por zumbis, é obrigação do escritor mostrar ao leitor como o planeta chegou a esse ponto, o que provocou essa invasão de mortos-vivos.

Para isso, essas circunstâncias devem estar muito claras para o autor. Afinal, se nem ele souber direito o que causou essa epidemia na Terra, como vai passar a informação ao leitor? Daí a importância da premissa. Nela o escritor deve desenvolver em detalhes esses antecedentes, mesmo que nem todos esses pormenores apareçam, posteriormente, no enredo.

O próximo passo é saber como inserir tais elementos na história. Há vários caminhos para se contar ao leitor o que houve antes do início da história. O autor pode-se valer de um flashback no início do livro, algo como “dez anos antes”. Ou, em algum momento da trama, um dos personagens pode revelar esse passado ao protagonista; também é possível ir contando gradualmente, ao longo da narrativa.

De qualquer forma, seja qual for a escolha do autor, ele não pode fugir de seu principal objetivo, engajar o leitor, cativá-lo desde a primeira linha. Por essa razão esses esclarecimentos devem sempre primar pela coerência, coesão e concisão, os três pilares que sustentam uma boa história. Assim, todos os elementos do enredo se encaixarão perfeitamente e ele ficará claro, sem furos, contradições ou incoerências. Não há necessidade de criar um mundo muito intrincado, pois o próprio autor se perderá na hora de costurar a trama e, ao invés de ação, suspense e mistério, o leitor irá se deparar com uma série de explicações sobre o ‘background’.

As descrições do cenário devem se resumir ao que for essencial para a história. Se uma determinada paisagem ou artefato tiver um papel importante na narrativa, então vale a pena caprichar nos detalhes descritivos. Por exemplo, se houver uma cidade que abriga os humanos não contaminados pelos zumbis e ela corre o risco de ser invadida pelos mortos-vivos, será fundamental descrevê-la minuciosamente, principalmente seus mecanismos de defesa e os pontos frágeis, por onde os inimigos podem avançar.

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Após definir os pontos estratégicos, é essencial focar na trama em si. Quem serão os personagens? Entre eles, quantos deterão o ponto de vista (PDV)? Deles, quem atuará como o protagonista? Pretendo, em um próximo texto, esclarecer melhor o que é o ponto de vista e os cuidados que se deve ter para preservá-lo, de forma que o leitor saiba sempre quem está contando a história.

Por enquanto, basta um exemplo simples. Nessa narrativa dos mortos-vivos, o autor escolhe focar em dois pontos de vista: o de um zumbi e o de um humano. Cada um deles vai ter o seu ponto de vista pessoal sobre o mesmo evento apocalíptico. Quando, em um determinado capítulo, o morto-vivo detiver o PDV, cada fato deverá ser filtrado pelo olhar dele. O mesmo vale para quando o humano tiver a oportunidade de revelar o mundo através de sua própria visão. Mas, então, quem será o protagonista? Simples. Aquele que tiver mais vezes a posse do PDV.

Na premissa, o autor deve delinear o perfil de cada personagem, estabelecendo também quem serão os antagonistas e se haverá um vilão principal. Claro que, ao longo da trama, ele poderá desenvolver melhor as características físicas e psicológicas deles, e até modificar alguns elementos, mas pelo menos o básico deve ser preestabelecido, principalmente seus nomes.

Aqui cabe um parêntese. Quanto mais complexos forem os nomes e quanto mais personagens compuserem a galeria da história, maior dificuldade terá o leitor de memorizá-los e mais perdido ficará.

Outro ingrediente essencial na premissa é o espaço-tempo. Se o autor já definiu em que espaço se passa a trama, chegou a hora de escolher a temporalidade. Em que época se passará a história? E em que tempo verbal ele a contará ao leitor? Seja qual for a opção, não pode haver deslizes. Ou seja, é determinante não misturar presente e passado, nem os tempos verbais; é muito comum encontrar ‘tu’ e ‘você’ em estranha convivência na mesma narrativa.

Agora, executadas essas etapas, eis que chega o momento de se preocupar com o cerne da história. Qual o objetivo do protagonista? O que ele pretende realizar? Que dilema central o perturba? Que jornada lhe caberá percorrer? Que obstáculos enfrentará até cumprir sua missão? Ele chegará vitorioso ao final do trajeto? Esses e outros elementos das famosas cenas, sem as quais uma história não existe, serão esclarecidos no próximo artigo. Mas, mesmo sem conhecer bem esses ingredientes, já é possível responder essas questões primordiais. O autor deve ter em mente o ponto de partida da trama e sua conclusão, ainda que seja uma obra aberta. Assim, ao longo do enredo, bastará criar uma ponte entre o início e o fim da história.

Resumindo, não basta ter uma ideia e sair escrevendo. É necessário primeiro criar o universo que se pretende retratar – seu passado, presente e futuro. E, aqui, uma dica final e essencial. Seja qual for o universo que o autor deseje criar, esse mundo deve funcionar bem no seu livro, para que ele engaje o leitor do começo ao fim.

Espero ter contribuído para clarear um pouco a mente do autor. Nos próximos textos, vou trabalhar um pouco melhor cada um desses elementos. Portanto, se tiverem dúvidas, não deixem de compartilhá-las.

Ana Santana Blog Editora Astronauta New

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